Não entendi nada quando vi aquele moleque com um violão cheio de adesivos de banda. Porra, conheço esse cara tem quase dois meses, mas já conversamos sobre muita coisa, não sabia que ele tocava.
Também nunca toquei nesse assunto, mas é estranho. É como quando você descobre que um amigo tem a mesma tatuagem que você, ou o mesmo sobrenome, sei lá.
Neguinho colocou logo pilha, um sonoro “hummmm” por parte das meninas, e quase como um corinho dos cuecas “toca uma pra mim” foram as primeiras reações ao avistaram o bicho de seis cordas. Fiquei logo com vontade de pegar aquela porra e tocar umas musicas, mas rola sempre aquela desculpa de “to enferrujado” e também não queria fazer feio na frente daquelas garotas. O Ricardinho tocou algumas coisas lá, musiquinhas que tocam em toda churrascaria e a galera canta junto. Ele não era um grande instrumentista, quiçá um quebra galho. Aquilo estava legal! Até que uma certa hora, que já devidamente calibrado pelo bar, e pela continuidade do licor que não sei de que, peguei o violão quando o Ricardo acabou de tocar. A surpresa que tive quando vi esse cara tocando, foi a mesma que ele teve com minha atitude. Toquei algumas músicas que lembrava. A galera gostou quando toquei umas do Bob Marley. Depois de algumas musiquinhas, eu e Ricardo ficamos naquela de “vê se você conhece essa aqui”.
O pior é que mesmo nessa fase, ninguém foi dormir. Depois disso toquei mais algumas do Bob. A galera estava gostando, mas estavam com sono, Bob também não ajuda a manter ninguém acordado, mas essa não era a intenção. O que me chamou a atenção foi o fato da Juliana ficar o tempo todo rindo. Imaginei logo que se tratava de uma grande fã do rastaman, o que pude perceber ser um ledo engano, quando perguntei se ela gostava do Bob, e ela disse que não conhecia nenhuma música. Eu poderia falar que aquilo tudo que toquei era de minha autoria que ela iria acreditar perfeitamente. Nesse rolo aí, a Priscila, irmã do Ricardo, que todos conhecemos como Pri, brincou, falando que podíamos arrumar mais alguns e formarmos uma banda, mas que ela seria a empresária. O Gustavo levantou a mão falando que seria o baterista. Todo mundo olhou pra ele e a Pri perguntou se ele sabia tocar, ele disse que não, mas que o irmão dele tocava, e tinha uma bateria parada no terraço de casa. Brincamos falando que um cara que não tinha coordenação motora para dirigir aprenderia sim a tocar batera facilmente. Respondendo a Pri, o Ricardo até brincou, dizendo que primeiro precisávamos de fãs para apoiar, do que empresária pra nos ferrar.
Enquanto esse luau improvisado acontecia, rolou um climinha entre um carinha e uma garota da nossa galera, o Marcelo e a Fernanda. Não aconteceu nada, mas estava um se escorando no ombro do outro. Isso pra mim é porre ou mole, como ela não bebe, vou ficar com a segunda opção. Chegou uma hora que ninguém agüentava mais, apesar de estar bem legal, o sono era mais forte, no dia seguinte tinha mais.
Caí num quarto com o Marcelo e o Gustavo. Não tinha muita amizade com o Marcelo, não por nada, mais por falta de contato mesmo, ele nunca aparecia na faculdade nem nas nossas saídas, mas o Gustavo era meu amigo, e amigo de infância do Marcelo.
Fui para o quarto primeiro, eles ficaram conversando com o Ricardo e mais alguém eu acho, dava pra ouvir vozes do lado de fora da janela, mas não sabia de quem era, nem o que falavam.