II - O Flerte

Sempre tive uma queda pela música. Apesar de escutar muito lixo quando era mais novo, isso é um fato que não posso negar. Minha primeira referência de música foi uma banda de rock dos anos 80. Depois cresci ouvindo pagode, afinal era moda, mas o que importa era que eu gostava disso na época. Não tinha influência musical dos meus pais, eles nunca se ligaram em “nomes de músicas”. Tenho a sorte de ser curioso e ir atrás de algo que escute e goste. Isso me levou a escutar de tudo um pouco, mas não foi bem por aí que minha cultura “sonora” começou. Certa vez o grande amigo que conheci na primeira comunhão e tenho até hoje ganhou um cavaquinho de presente. Ele não sabia tocar aquele treco e nem nunca aprendeu, deu aquilo pro primo uns meses depois. Ele também tinha um tam tam, um tamborzinho de pagode pra quem não sabe. Desde sempre meu pai teve um pandeiro, apesar de não saber tocar muito bem, então, naquele empolgação de garotada, comprei um outro instrumento lá, juntamos outros amigos e ficávamos batucando na rua mesmo, pois na casa de qualquer um era impossível, devido a qualidade musical do grupo. Não tínhamos nem nome, nem música, nem cantor, mas essa foi a primeira vez que fiz musica. Logo aquilo passou. Outro grande amigo em comum, ganhou uma vez um computador. Nessa época, ninguém, pelo menos da nossa galera tinha visto um. Nas vezes que ia na casa dele para me aventurar na internet, ele ficava me mostrando musicas e clips que havia baixado de uma banda que eu já tinha escutado falar e só conhecia uma música. Essa banda era o Guns N’ Roses. Como falei, nunca fui preconceituoso com música, não tinha e nem tenho um estilo, escuto um determinado segmento, mas quando ouço algo que agrade meus ouvidos, passo a gostar e me interessar por aquilo e pelo que influenciou aquilo, formando uma grande bola de neve musical. Cada vez que esse cara me mostrava uma música do guns, ele perguntava: “lembra dessa música?” E eu lembrava. Fui levando aquilo pra casa, em cd’s piratas, junto com outras coisas como aerosmith. A partir daí, não vou dizer que fui bombardeado pelo rock, mas comecei a dar atenção aos bombardeios que vinha sofrendo. Tinha um vizinho de parede que todo final de semana escutava várias músicas legais, e encerrava suas audições com a que eu chamava de “a musica do tio Milton”. Depois fui saber que a sonzeira tida religiosamente como a última musica antes de ir dormir após ficar em casa bebendo rum, se chamava sultans of swing.
Pedi o disco emprestado e copiei para mim. Isso foi mais ou menos na mesma época que comecei a tocar violão, acho que um pouco depois de ter iniciado minhas aulas.
Meus sempre tocaram muito violão e na mesma proporção bebiam. Eles sempre foram de seresta, tocar em bares em troca de cerveja, uns boêmios na melhor definição da palavra. Um tocava, bebia e ia dormir, enquanto o outro sempre foi tipo uma Amy Winehouse, talentoso, porém quizumbeiro.
Anos de álcool, madrugas e violões não fazem bem a um ser humano, que dirá uma família. Isso levou a síndrome do pânico e consequentemente a uma bizarra separação da esposa e fazendo que suas filhas ficassem do lado da mãe. Em qualquer idade isso é barra, do nada você olha pra si e vê um cara sem casa, carro, cachorro. Talvez foi essa falta de perspectiva que trilhou caminhos e terminou em uma tentativa de suicídio. Algumas semanas depois do envenenamento fracassado, lá estava esse tio junkie em minha casa. Ele era chato, mas gente boa, se é que existe essa possibilidade. Quando ele arrumou um canto e saiu da minha “jurisdição” não pode levar tudo o que tinha. Deixou algumas malas de roupas e um violão. Maneiro o violão que ficou lá. Tinha vindo do Japão, esse tio Winehouse, morou uns tempos por lá pra levantar uma grana, e trouxe esse Yamaha CG 170 SA. Já tinha de épocas remotas, vontade de tocar. Mas não sei pelo fato de não ter paciência de aprender ou de ninguém ter paciência pra ensinar, isso foi passando, e acabei vendendo um violão velho que tinha em casa, pra uma coroa que ensinava violão em uma igreja vizinha.
Com esse violão que meu tio deixou em casa encostado, uma vez eu estava assistindo televisão e vi um cara tocando uma música, isso é bem vago em minha mente, não sei quem era, não sei que música era, não sei de nada. Sei que gostei daquilo e decidi aprender a tocar.
Alguns amigos faziam aula com essa senhora que ensinava na igreja do lado da minha casa, falei com eles, falei com ela e comecei.