Nunca fui uma criança triste, tipo aquelas que vi crescendo ao meu lado. Aliás, não considero aquelas crianças tristes.
O que quero dizer é que nunca fui daqueles moleques que apanhavam por qualquer coisa, ficavam de castigo ou presos em casa por não estudar. Esse ponto de estudar sempre foi algo marcante em minha vida. A volatilidade entre a serenidade do início de um ano letivo e a tensão de uma visita dos meus pais ao colégio. Me sinto as vezes gabaritado a ser um mestre maçom para guardar segredos, pelo treino que tive ao esconder meus boletins.
Mesmo sabendo que não estou me dirigindo a nenhuma criança ou adolescente que ainda seja influenciável, aviso que não é uma dica, pois nunca fui, e espero não ser exemplo para ninguém, eu nunca estudei e sempre passei de ano. É que sempre achei uma teoria (para não dizer desculpa) para meus atos, e nesse caso, para meu pensar, ser culto e poder conversar sobre qualquer assunto, com qualquer pessoa era e continua sendo muito mais inteligente do que decorar a fórmula de baskara.
Não que ter a formula de baskara decorada seja inútil. Eu mesmo decorei, foi fácil, como um número de telefone. Só que nunca soube como usar e pra que servia, afinal, pra que perder meu tempo estudando isso tudo se alguém sempre me passava um papel com a resposta? Assim se resume minha vida escolar com relação as exatas.
Voltando ao que interessa, sempre fui de fazer minhas artes, que por sinal eram muitíssimo planejadas, pois tinha mais medo de tomar um esporro do meu pai do que de apanhar.
Sabe aquele garoto que para soltar uma bomba, fazia um pavio gigantesco só para dar tempo de correr, e quando aquilo explodisse, estar bem longe e fazer cara de assustado e ainda apoiar quem reclamava do barulho? Então, esse carinha era eu.
Achava mais divertido o pré e o pós-”M” do que a própria em si.
Também era o organizador de tudo, desde o futebol até os campeonatos de ping-pong, que por sinal eram bem organizado. Não tinha paciência para esperar um ônibus, mas ficava prazerosamente escondido por horas só para dar um susto em alguém. Resumindo: Sempre fui um garoto fdp, mas se é que existe, um fdp do bem. Fazia minhas sacanagens mas nunca prejudiquei ninguém. Existia na minha época uma espécie de criança (talvez fabricada em linha de montagem) que os pais matriculavam em aulas de natação, judô, futebol, caratê, cuspe à distância, e ficam tirando fotos e filmando competições, juntando a família num domingo de manhã no clube para cantarem musiquinhas do tipo “zum zum zum, passou um avião” com o nome do corninho só para incentivar o moleque a nadar melhor ou meter um gol.
Enquanto isso por dentro o carinha está cheio de vergonha, preocupado em fazer bonito e doido para mandar todo mundo sifu. Esse que vos fala, aliás, vos escreve, aliás, eu! Fica melhor escrever de uma maneira que todos entendam, já que não sou escritor, não repare em nada ta? Como vinha dizendo, eu às vezes também tive esses momentos em minha infância e adolescência, de entrar em vários cursinhos e escolinhas, religiosamente sempre saindo com no máximo poucas fases da lua trocadas. Isso foi um ponto legal, pois sempre tive liberdade e nunca fui obrigado a nada. Tanto que me surpreendo até hoje como consegui cursar a catequese e fazer minha primeira comunhão, mas eu era novo e lá tinha pessoas legais. Entre elas um grande amigo que tenho até hoje e que indiretamente, por que não diretamente foi responsável por muita coisa, inclusive este livro. Mas daqui a pouco falo dele. Tentando fazer um contraponto com minha idade, acho que ao invés de seguir a ordem natural das coisas (coisa que nunca fiz) como as pessoas com seus trinta e poucos / quarenta querem tranquilidade e descanso, eu queria isso com meus dez / quinze. Acho que isso fez acumular em mim uma carga perigosa de alguma substância, algum hormônio, sei lá, algo que no futuro me faria correr atrás de satisfação, me conduzindo na busca de endorfina, dopamina, adrenalina, menina e outras coisas terminadas em “ina”.